Acordar às 4h15 da manhã, comer, se deslocar, alongar e estar na água às 5h45. Essa era a rotina do Dr. Alexandre Frascino nos dias que antecederam sua participação no U.S. Masters Swimming Spring National Championship 2026, em Greensboro, Carolina do Norte — uma das competições de natação master mais disputadas do mundo. O mesmo profissional de 41 anos que mergulhava na piscina antes do amanhecer é cirurgião bucomaxilofacial com atuação no Hospital Sírio-Libanês e no Hospital Infantil Sabará. Não se trata de um caso raro de energia inesgotável, mas de algo mais replicável: a construção deliberada de uma rotina em que a eficiência no trabalho abre espaço para tudo o que existe fora dele.
Em entrevista ao blog da Voa, o Dr. Frascino fala sobre disciplina, documentação clínica com inteligência artificial, os limites saudáveis entre profissão e vida pessoal — e sobre o que acontece quando um profissional de saúde decide, conscientemente, não abrir mão do esporte, da pesquisa e da presença com a família. A conversa revela como ferramentas que devolvem tempo clínico mudam não apenas a produtividade, mas a qualidade de vida de quem cuida de outros. Para o Dr. Frascino, a Voa não é um recurso técnico isolado: é parte de um sistema pessoal de alta performance, construído ao longo de anos de conciliação entre cirurgias e braçadas.
Confira a entrevista:
Como você percebe a questão do tempo na vida do profissional da saúde?
Ainda somos de uma geração muito focada na profissão, que dedica quase todo tempo ao trabalho, sem espaço para a vida pessoal. É um erro do nosso método de formação. Felizmente, eu pude perceber isso e busco conciliar a profissão com a natação desde a faculdade. É claro que manter uma agenda esportiva trabalhando não é fácil, então há momentos em que estou mais dedicado à profissão, outros em que consigo priorizar o esporte. Mas organizar meu tempo para fazer essa conciliação possível se tornou parte da minha identidade. Ainda que existam períodos mais difíceis, com escolhas a serem feitas, eu nunca deixei o esporte por completo, também nunca deixei a profissão.
Como você lida com o sentimento de que é preciso estar disponível o tempo todo para os pacientes?
Eu já senti muitas vezes essa necessidade de estar disponível 100% do tempo, mas hoje controlo melhor essa sensação porque aprendi a dividir responsabilidades com colegas de profissão. É como uma prova de revezamento, em que dividimos a responsabilidade com outros integrantes da equipe. O segredo é aprender a delegar parte das tarefas a serem executadas, algo que requer boa comunicação e pode ser facilitado com o uso de tecnologias. Hoje eu divido muita coisa com a minha equipe por meio de relatórios que extraio usando inteligência artificial, por exemplo.
“O segredo é aprender a delegar parte das tarefas a serem executadas, algo que requer boa comunicação e pode ser facilitado com o uso de tecnologias.”
Você vê a inteligência artificial como uma aliada na organização do tempo?
Sim, de diversas maneiras. Antes do paciente entrar no consultório, por exemplo, eu reviso o prontuário gerado para evitar perguntas repetidas e otimizar o atendimento. A Voa se tornou uma grande aliada, capaz de resumir informações, levantar pontos relevantes e apoiar todo o cuidado dos pacientes. Eu uso o Charcot para verificar “red flags” e interações medicamentosas, tarefas que consumiam muito tempo. Agora, acabando a consulta, eu não preciso mais escrever muita coisa, apenas revisar o que a tecnologia gerou. Com menos tempo gasto, posso deixar o meu atendimento mais humano.

Os pacientes percebem os benefícios que a IA oferece para o atendimento?
Muito! Quem mais gosta são as crianças e adolescentes, que acham incrível o profissional conversar de maneira atenta, olhando para eles, sem tela, sem anotações. É um público que percebe essa diferença de ter uma conversa sem interrupções. E eu me senti mais à vontade nos atendimentos, mais próximo dos pacientes, porque percebi que podia fazer isso enquanto a tecnologia anota as informações que preciso usar depois.
“Me senti mais à vontade nos atendimentos, mais próximo dos pacientes, percebi que podia fazer isso enquanto a tecnologia anota as informações que preciso usar depois.”
Agora, a natação! Como foi a experiência de competir nos Estados Unidos?
Foi uma experiência muito diferente das competições que eu tinha vivenciado no Brasil, porque os competidores tinham níveis altíssimos, mas em nenhum momento eu percebi chateação ou tristeza pelos resultados. As pessoas estavam satisfeitas, o que me marcou. Eu nadei os 50 metros borboleta, os 50 metros livre e os 100 metros borboleta. Quando terminei, fiquei olhando para a água, percebendo as luzes, as cores e os sons, para que o momento ficasse eternizado na minha cabeça. Era um ambiente de pessoas felizes por praticar sua atividade, dar o seu melhor, independente de metas e resultados. Foi uma sensação muito boa.
Como é a sua rotina de treinamento conciliada com a carreira profissional?
Para essa competição, eu acordava às 4h15 da manhã para comer, me deslocar, alongar e cair na água às 5h45. Uma rotina muito rígida que envolvia deixar tudo arrumado no dia anterior, dormindo cedo para acordar cedo, mantendo boa comunicação com a família e a equipe de trabalho, que entenderam esse momento diferente, delicado, em que estava focado no esporte. Além disso, eu fazia um treino físico três vezes na semana, à noite ou na hora do almoço, bloqueando ainda mais a agenda. Fazer tudo isso só foi possível com essa clareza em explicar o momento para as pessoas envolvidas. E consigo fazer isso por conta desse processo pessoal de muitos anos, de conseguir fazer essas conciliações.
De que maneira o esporte contribui com a prática profissional e vice-versa?
Existe uma sinergia completa. Na cirurgia, não existe espaço para improviso. Em provas rápidas na piscina, de 50 ou 100 metros, também não. Nos dois casos, ações que podem parecer tão naturais foram muito pensadas e repetidas, mentalmente e fisicamente. Meu lado atleta faz eu querer planejar mais as cirurgias. Várias vezes, sento de olhos fechados no centro cirúrgico para imaginar exatamente os passos que vou executar, como eu faço antes da competição. É um exercício mental que eu trouxe do esporte para a profissão. Por outro lado, eu já pensei em cirurgias difíceis realizadas com sucesso para afastar o nervosismo antes de provas de natação, o que também me ajudou.
“Sento de olhos fechados no centro cirúrgico para imaginar exatamente os passos que vou executar, como eu faço antes de uma competição.”
Que conselho você dá a profissionais da saúde que sofrem com a falta de tempo para uma rotina mais equilibrada?
A minha dica sempre é: você precisa estar bem para cuidar do outro. A saúde mental e a saúde física são coisas muito importantes, que estão conectadas. Então, a primeira coisa é não ter medo de pedir ajuda se você não estiver bem. A segunda questão é controlar as expectativas, tendo consciência dos seus limites. O esporte me ensinou que os processos podem ser mais prazerosos que os resultados. Não é fácil encontrar tempo, mas a gente precisa internalizar essa questão para diminuir as expectativas próprias, dos pacientes e da família. Só assim podemos controlar melhor o tempo disponível.
“Você precisa estar bem para cuidar do outro. A saúde mental e a saúde física são coisas muito importantes.”
Entre cirurgias e braçadas: como um cirurgião concilia rotina profissional e natação competitiva