Antes visto apenas como um problema individual, o burnout médico hoje emerge como um dos sinais mais evidentes das pressões e das rotinas exaustivas da profissão, muitas vezes associadas a falhas estruturais do sistema de saúde.
A pesquisa Saúde Mental do Médico, conduzida pelo Research Center da Afya, mostra que 62% dos profissionais no Brasil já apresentaram sintomas ou foram diagnosticados com burnout. Em outros países, o cenário se repete: o Medscape Physician Burnout & Depression Report 2024 aponta que mais da metade dos médicos relataram esgotamento, citando como causas principais a burocracia excessiva, as longas jornadas e a frustração diante da ineficiência do sistema.
A Dra. Patricia Carla Zanelatto Gonçalves passou por um burnout e hoje tem uma visão ampla, crítica e iluminada sobre o assunto. Em entrevista à Voa Health, a médica e professora do curso de medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com atuação em liderança e inovação curricular em cursos de medicina, compartilha sua experiência, aponta os fatores que favorecem o esgotamento na profissão e destaca o papel da inteligência artificial como aliada frente às crescentes demandas da prática médica.
Você viveu um burnout. Pode nos contar o que aconteceu?
O ano de 2020, marcado pela pandemia, transformou completamente a forma como eu trabalhava. Eu já atuava como professora no curso de medicina, sempre no formato presencial, com aulas práticas, atendimento em unidades de saúde e contato direto com os alunos. De repente, tivemos que migrar para o ensino remoto — e tentar reproduzir, à distância, a vivência de um atendimento real.
Nessas aulas, eu acumulava múltiplos papéis: era a paciente simulada, a professora que orientava, a médica que conduzia o caso, e, ao final, ainda precisava avaliar e dar feedback. A maioria dos alunos sequer abria a câmera, o que tornava tudo ainda mais desgastante. Apesar de me dedicar intensamente, carregava um sentimento constante de culpa por saber que eles não tinham as mesmas condições de aprendizado dos alunos anteriores — e por entender que estavam pagando caro por um curso, em um momento de enorme dificuldade econômica para o país. Hoje percebo que tentei compensar algo que não estava sob meu controle, e que essa autocrítica excessiva foi um peso enorme.
Quando retornamos ao presencial, em outubro, percebi que não estava bem. Mesmo assim, me convenci de que precisava “aguentar” até o final do ano. Minha concentração estava tão comprometida que passei a ir ao campus acompanhada de um amigo médico, que me levava e ficava por perto durante as aulas. Ele era, de certa forma, minha “rota de fuga” caso eu tivesse uma crise de pânico. Nas aulas, havia momentos em que, no meio de uma simulação, eu tinha lapsos de memória ou me perdia totalmente. Foi um período muito difícil.
Assim que o semestre terminou, procurei ajuda psiquiátrica e solicitei meu afastamento temporário das atividades. Esse foi o primeiro passo para reconhecer o que estava acontecendo comigo e iniciar o meu processo de recuperação.
Mesmo sendo médica, você demorou a perceber o problema?
Eu ignorei os sinais de alerta. Por volta de julho de 2020, desenvolvi uma síndrome do desfiladeiro torácico, que me causou perda de força na mão direita. Após uma consulta médica, descobri que a causa era uma contratura muscular comprimindo o nervo, o que levava a redução da força na mão. Fiz fisioterapia com RPG e recuperei a função.
No entanto, outros sinais começaram a aparecer: alterações de sono, ansiedade crescente. Acabei recorrendo à automedicação — primeiro para dormir melhor, depois para controlar a ansiedade — acreditando que daria conta sozinha. Eu tinha a convicção de que, por manter uma prática espiritual consistente, me alimentar bem e praticar atividade física, jamais passaria por um burnout.
Hoje percebo que, na realidade, estava ignorando mensagens claras que meu corpo estava enviando. A automedicação acabou mascarando os sintomas, mas não resolveu as causas reais do problema.
O que você vê na profissão médica que favorece o burnout?
Vejo vários fatores na profissão médica que favorecem o burnout. O primeiro é a pressão constante por desempenho. Espera-se que o médico consiga resolver qualquer problema, dar conta de qualquer situação, e isso se intensifica ainda mais em momentos de crise sanitária, como uma pandemia, quando a expectativa social é de que possamos ajudar a todos — mesmo quando sabemos que existem limitações.
Outro ponto marcante é a cultura de negligenciar o próprio cuidado. Estamos tão focados em atender, acolher e resolver as demandas dos outros que, muitas vezes, nos colocamos em último lugar. No meu caso, eu ainda tinha a crença de que, se algo saísse do controle, poderia resolver com o tratamento médico adequado. Acreditava que, com a medicação certa, conseguiria recuperar rapidamente minhas funções. A realidade foi bem diferente. Busquei vários tratamentos, procurei diferentes especialistas e até recorri a terapias alternativas, sempre buscando o que havia de melhor disponível naquele momento. No entanto, os resultados foram muito limitados.
Essa experiência me mostrou que o burnout não é algo que se resolve apenas com intervenção médica ou medicamentosa ou repouso — ele exige mudanças mais profundas na forma como vivemos e trabalhamos.
A formação médica já estimula esse tipo de esgotamento?
O modelo de formação médica que eu vivenciei, sem dúvida, favorecia o esgotamento físico e mental dos profissionais da saúde. Havia uma pressão intensa para “saber tudo de tudo” e decorar uma quantidade imensa de informações. O acesso a livros e artigos científicos era caro e limitado, o que nos obrigava a aproveitar ao máximo cada oportunidade de aprendizado.
Hoje, o cenário é diferente. Os alunos têm acesso muito mais fácil a livros, artigos e outros recursos. A formação atual valoriza menos a memorização exaustiva e mais a capacidade de buscar informações adequadas e confiáveis, e de aplicá-las de forma crítica na prática médica. Além disso, percebo que há maior valorização da saúde mental do estudante, incentivo ao autocuidado e orientação para gestão de carreira.
Apesar dessas melhorias, a medicina continua sendo um curso extremamente denso, com muitas horas de dedicação, grande expectativa social e enorme responsabilidade. Ou seja, avançamos bastante, mas ainda é uma formação exigente e desafiadora.
A sobrecarga burocrática é uma das causas de burnout entre médicos. Você acha que formulários, sistemas e outras exigências administrativas geram exaustão?
A burocracia atrapalha porque nos obriga a investir tempo em tarefas que, muitas vezes, não são essenciais para a nossa função principal. Como médica, antes eu simplesmente registrava a consulta e seguia para o próximo atendimento. Como docente, chegava, ministrava a aula e interagia com os alunos.
Hoje, porém, a quantidade de registros, lançamentos em portais e sistemas, e outras exigências administrativas é muito maior. Na educação médica, especificamente, percebo que essa carga burocrática consome um tempo precioso que poderia ser dedicado ao ensino ou à assistência.
O que tem me ajudado a lidar com isso é o uso da inteligência artificial. Muitos processos eu já configurei para que a IA me auxilie de forma cada vez mais rápida e precisa. Assim, em vez de executar tudo manualmente, meu papel passa a ser verificar se o que foi produzido está adequado e garantir que as fontes utilizadas sejam confiáveis. Com o tempo, esses ajustes têm se tornado mais ágeis.
Sinceramente, sem esse apoio tecnológico, hoje eu não conseguiria dar conta de todas as demandas do meu trabalho.
Médicos têm dificuldade para admitir que estão enfrentando um burnout? A ideia de que exaustão é um sinal de fraqueza ainda está presente?
Os médicos, de fato, têm dificuldade em reconhecer que estão em burnout. Em geral, não param para olhar para si mesmos: estão sempre focados no outro, no paciente, em uma demanda atrás da outra. É raro encontrar um médico que consiga manter, de forma consistente, horários para autocuidado, atividade física ou descanso. Como a medicina lida com situações de emergência e com a vida das pessoas, o cuidado com o paciente acaba se sobrepondo e, muitas vezes, negligenciamos o cuidado conosco.
Ainda existe, sim, a percepção de que admitir exaustão é sinal de fraqueza. Lembro que, durante um curso de especialização em educação, em uma sessão online, compartilhei publicamente que estava vivendo um burnout. Recebi várias mensagens privadas elogiando a “coragem” de me expor e contando que outros colegas também enfrentavam a mesma situação, mas não se sentiam à vontade para falar, especialmente diante de pessoas que não conheciam. Para muitos, isso ainda é visto como fragilidade.
No meu caso, a minha fé sempre me deu tranquilidade quanto a esse ponto. Sei que somos humanos, imperfeitos, e que, embora possamos e devamos nos dedicar ao máximo, também precisamos cuidar de nós mesmos. Reconhecer fragilidades não é sinal de fraqueza — pelo contrário, é uma forma de força que nasce do entendimento e da aceitação das nossas próprias limitações.
Os debates sobre saúde mental estão mudando os olhares sobre o burnout? O que já melhorou e o que ainda precisa evoluir?
Hoje se fala mais sobre saúde mental, mas o foco ainda está majoritariamente nos pacientes com transtornos como ansiedade, depressão e outros distúrbios de humor. Quando se trata do cuidado com o próprio médico ou com outros profissionais de saúde, vejo que ainda se fala pouco — e se faz menos ainda.
Houve avanços, sim, mas insuficientes. É necessário ampliar o debate e, principalmente, implementar estratégias concretas que protejam esses profissionais em seus ambientes de trabalho. Isso inclui garantir jornadas mais equilibradas, criar mecanismos para aliviar a pressão durante o exercício da função e promover espaços de apoio real.
Infelizmente, o que ainda predomina em muitos contextos é o aumento das cobranças, sem contrapartidas que favoreçam o bem-estar.
Que práticas, hábitos e mudanças estruturais podem ajudar os médicos a equilibrar vida pessoal e profissional?
Eu me considero um pouco fora da curva, porque nunca priorizei a medicina em detrimento da minha prática espiritual ou da minha família. A medicina é uma profissão que eu amo, que exerço com responsabilidade e dedicação, mas, para mim, ela sempre foi um trabalho — importante, sim, mas não a única dimensão da minha vida.
Quando minhas filhas nasceram, deixei de trabalhar 40 horas e passei a atuar apenas dois períodos por semana, por cerca de dois ou três anos. Quis viver esse momento plenamente: amamentar, acompanhar o crescimento delas, estar presente. Quando começaram a ir para a escola, aumentei a carga para meio período, mas ouvi de vários colegas a pergunta: “Quando você vai voltar a trabalhar?”.
Naquele momento, ficou claro para mim que não abriria mão da convivência com minhas filhas, com minha família e com minha prática espiritual para me dedicar 40 ou 60 horas semanais, como a maioria. Minha fé me ajudou a compreender que, para elas, era muito mais importante quem eu poderia ser como mãe do que o que eu poderia prover financeiramente. Essa visão moldou toda a minha trajetória profissional.
Hoje, com minhas filhas já com 17 anos, posso me dedicar mais à carreira. Atuo menos na assistência médica e muito mais na educação médica, estudo intensamente o tema e trabalho em várias frentes dessa área, sentindo-me profissionalmente realizada.
Claro que, em determinados momentos — como início de semestre ou períodos de férias, que antecedem o retorno das atividades —, trabalho mais horas do que o habitual. Mas, no geral, consigo manter o equilíbrio.
Se pudesse deixar um conselho, seria este: a medicina é um trabalho fundamental, mas não é um sacerdócio. Não somos médicos 24 horas por dia; somos pessoas, membros de uma família. E quanto mais fortalecida estiver essa dimensão pessoal, melhor será o profissional que entregamos à sociedade.
Leia também: Entre consultas e burocracias: o impacto da sobrecarga administrativa no tempo do médico
“Eu ignorei os sinais”: médica conta como enfrentou o burnout e as pressões da medicina